Há dois meses, fui entrevistada para falar sobre “Chefes Analógicos”. A jornalista estava interessada em ouvir a minha opinião sobre os desafios enfrentados por líderes que não possuem a mesma familiaridade e competência no mundo digital que seus subordinados. Conversamos sobre a nova geração de profissionais, conectada e com facilidade para usar todas as ferramentas digitais, e os desafios por ela colocados aos líderes dentro das empresas.

Mobilizada por esta conversa, comecei a refletir sobre mim. Teria eu tido alguma dificuldade como líder para falar a mesma língua que minha equipe, afinal não sou tão velha assim (tenho 45 anos)? De fato, percebi que liderei recentemente pessoas muito mais conectadas e muito mais habilidosas do que eu para usar tudo o que teoricamente facilita a nossa vida, inclusive no ambiente de trabalho. Descobri que estou no meio do caminho entre o mundo analógico e o digital. Não ando em São Paulo sem o Waze ou sem o 99Taxi, mas gosto mesmo é de ler jornal e revista em papel e ainda não consegui migrar o hábito de fazer anotações no caderno para o Ipad.

Em segundo lugar, com 50% de menção, aparece o desafio de “compreender o processo de tomada de decisão e nível de autonomia”. De fato, em nossa prática diária acompanhando estes profissionais, percebemos que uma das questões mais frequentemente trazidas como desafio é decifrar as sutilezas das relações de poder no topo da organização. Em terceiro lugar, aparecem três questões com 42% de menção cada uma delas: “compreender e dominar o negócio e mercado”, “alinhar o estilo de liderança à cultura da empresa” e “entender as expectativas sobre a sua posição”. Observamos que quanto mais maturidade o profissional adquire, mais atento ele se torna em relação à importância dos aspectos mais intangíveis, como o alinhamento do estilo de liderança à cultura da empresa. Observamos que os profissionais mais conscientes estão atentos a capturar, por exemplo, as expectativas em relação a sua posição com os diferentes stakeholders e não apenas o líder imediato.

Hoje retomei este assunto com um profissional que tem acompanhado de perto esta mudança social: de uma sociedade analógica para uma sociedade digital e os seus impactos na indústria de comunicação. Fernando Costa atuou por mais de 40 anos nas duas maiores editoras de revistas da América Latina e compartilha conosco sua visão sobre esse momento fervilhante que editores e leitores estão vivendo nessa indústria em transformação.

Beatriz: Fernando, que mudanças você observa que estão acontecendo na sociedade? Quais as evidências que nos fazem acreditar que a sociedade está se tornando de fato uma sociedade digital?

Fernando: Eu entendo que estamos passando por uma mudança épica. Estamos aos poucos saindo de uma sociedade industrial, onde o grande ativo tinha sua expressão através de bens materiais, de grandes indústrias e suas máquinas, numa sociedade onde o poder estava com poucos, e estamos entrando com velocidade cada vez maior na sociedade do conhecimento, onde o grande ativo é a inteligência, a democratização e velocidade da informação e o poder está cada vez mais fragmentado. Para ficar mais clara a diferença entre essas duas épocas, dou alguns exemplos emblemáticos:

Sociedade Industrial
Broadcast TV (de 1 para muitos)
Marca + valiosa: Coca-Cola
Comícios (de 1 para muitos)
O poder está na Instituição
Ciclo de vida de produto longo

Sociedade do Conhecimento
Internet (comunicação em rede mundial)
Marca + valiosa: Google
Passeatas Jun/13 (Interesses difusos)
O poder está no Indivíduo
Ciclo de vida de produto curtíssimo

Claro que esse não é um movimento abrupto e não há um muro divisório entre essas duas épocas, mas com certeza estamos todos vivendo hoje uma transição, um momento muito rico e muito desafiador ao mesmo tempo, pois as coisas não funcionam mais como funcionavam no passado, e ainda não funcionam como será no futuro, pois esse futuro ainda está sendo construído.

E isso se reflete nas nossas vidas e na vida das organizações. Por uma questão geracional, você, eu e muitos amigos de nossas gerações, passamos a maior parte de nossas vidas inseridos na cultura da Sociedade Industrial e temos nos adaptado a esse mundo novo e digital. Por outro lado, os mais jovens, relativamente, estão com a maior parte de suas vidas acontecendo no atual momento de transição, mas com um peso grande no mundo digital. Então a diferença é que os jovens não tem que se adaptar, eles apenas evoluem nessa nova Sociedade do Conhecimento. Essa diferença pode parecer sutil, mas é muito grande e determinante. A partir do momento em que me rendi e compartilhei com a minha equipe essa percepção de mudança de mundo, não tive mais problemas existenciais… (risos ).

A integração com os mais jovens da equipe ficou muito mais fácil e produtiva, a troca de conhecimento e experiências ficou muito mais rica, fomentou uma maior participação de todos e resultou num vetor poderoso de inovação e de melhoria no clima da área.

Beatriz: Quais os impactos destas mudanças na indústria de comunicação?

Beatriz:Fernando: O impacto é enorme. Talvez o maior deles seja assumir um novo papel na sociedade. Antes, uma revista de informação semanal decidia a pauta de assuntos que iria cobrir, escrevia como acreditava ser a melhor forma, finalizava os artigos e reportagens (quando havia um furo de reportagem, era possível segurá-lo por dias respeitando a periodicidade da revista), mandava para a gráfica, depois aos pontos de venda, esperava que tudo fosse vendido e que os leitores adorassem o conteúdo, afinal nossa revista tinha excelentes jornalistas.

Hoje a pauta não é mais tão “ditatorial” (as redes sociais são um bom termômetro do que os leitores querem ter de informação), a periodicidade da revista é secundária. O leitor tem de ser abastecido de informações a todo o tempo, via twitter, website, podcastings, eventos, edições digitais, aplicativos, vídeos, até que saia a revista impressa. Quando um editor faz isso, sua audiência se expande de uma forma quase geométrica, se comparada ao número de exemplares vendidos da edição impressa. O furo de reportagem tem de ser divulgado imediatamente, na plataforma mais adequada para aquele momento. Se assim não for, ele será derrubado por um post do concorrente, ou mesmo de um leitor que de alguma forma teve acesso à mesma informação pela sua rede de contatos. Tudo é muito rápido e nervoso e a publicação tem de procurar estar onde seu leitor está nas diversas plataformas ao longo das 24 horas do dia, nos 7 dias da semana, nos 30 dias do mês e nos 365 dias do ano.

Cada veículo deve aproveitar a força de sua marca, da confiança e credibilidade que conquistou junto aos leitores durante sua existência e explorar esse ativo que é valiosíssimo, nas novas plataformas. Essa é a nova dinâmica.A boa notícia é que com tanta informação gratuita e em abundância na web (e quantidade não quer dizer qualidade), as pessoas estão precisando que alguém faça a captura, a análise, a organização e entrega dessa informação validada, o que é e sempre foi o papel dos editores, dos produtores de conteúdo.Então, o que mudou drasticamente foi a dinâmica e o formato, mas não a essência do que as empresas de comunicação sempre fizeram muito bem.

Beatriz: Dizem que por trás das dificuldades há também boas oportunidades. Quais são as tendências e oportunidades de negócio que se abrem com a migração para a era digital?

Fernando: A máxima de que onde estão as dificuldades e desafios também estão grandes oportunidades nunca foi tão verdadeira. Nesse novo mundo, muito mais competitivo, quem conseguir ser relevante e manter essa relevância vai lucrar muito com isso. Como disse anteriormente, é possível expandir sua audiência com as novas plataformas. Com essa audiência expandida, a oportunidade é fazer dinheiro com a venda de conteúdos exclusivos, premium. Aumentar a participação da venda de conteúdo nas receitas de uma editora será fundamental, já que a tendência indica que a receita de publicidade deve diminuir sua participação no futuro, pois a oferta de opções aos anunciantes no mundo digital é extremamente fragmentada, com centenas de milhares de sites para anunciar. Assim, quem for bem sucedido na empreitada que mencionei acima, de, com sua credibilidade, expandir seu conteúdo para as outras plataformas e ganhar ainda mais relevância na vida das pessoas, além de resolver o famoso dilema de monetização do conteúdo, terá escrito o mais belo capítulo na história moderna da comunicação.

Formado em Marketing e Propaganda pela ESPM-SP, com especialização em Gestão no IMD-Suiça, acumula mais de 40 anos de experiência nas áreas de Assinaturas, Marketing Direto, Logística e Distribuição. Iniciou carreira no Grupo Abril em 1973. Durante 15 anos, foi diretor de Marketing, diretor de Circulação de Veja e Exame e coordenou a implantação de Assinaturas nas revistas mensais. Trabalhou 11 anos na área comercial da Editora Globo. De volta ao Grupo Abril em 2001, assumiu a Diretoria de Assinaturas até Agosto de 2014. Atua agora como consultor para empresas de Comunicação.

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